O que você precisa saber sobre o método 5S de emagrecimento

O programa promete perda de peso a partir de várias estratégias, entre elas a “reprogramação” do hipotálamo – procedimento sem evidências científicas
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Edivana foi sua primeira paciente. Pesando 92 quilos e sem conseguir emagrecer com dietas, ela decidiu fazer pós-graduação em obesidade e emagrecimento. Foi aí que ficou sabendo de um estudo sobre a relação entre excesso de peso e inflamação no hipotálamo, área do cérebro responsável por regular fome, saciedade e outros processos metabólicos do organismo. Segundo a pesquisa, uma maneira de desinflamar a região hipotalâmica seria por meio do uso de ômegas 3 e 9, gorduras do bem reconhecidas por suas propriedades anti-inflamatórias.

 

Com a ajuda de uma prima nutricionista, a fisioterapeuta elaborou um cardápio específico. Somou a isso medidas como suplementação vitamínica, relato diário das refeições e pesagem todos os dias. O resultado veio em pouco tempo: eliminou 8 quilos em uma semana. Ao final de três meses, enxugou 24 no total. O caso chamou a atenção de parentes e amigos, que passaram a seguir o método e também fizeram o número da balança cair drasticamente.

Como funciona

A “fórmula mágica” virou negócio, que já atendeu mais 9 mil pessoas e está presente em 331 clínicas de 25 estados brasileiros – e até em outros países, como Uruguai, Portugal e Estados Unidos. Personalidades como Adriana Bombom e a ex-BBB Paulinha Leitte aderiram ao método e secaram 8 e 9 quilos, respectivamente.

O nome, 5S, vem das cinco estratégias definidas por Edivana em parceria com uma equipe formada por médico, nutricionista e farmacêutico. São elas:

  1. Reeducação alimentar (não existe cardápio, o paciente é orientado a evitar o consumo de alimentos industrializados, hipercalóricos e de alto índice glicêmico, como carboidratos simples).
  2. Suplementação de vitaminas e minerais
  3. Desinflamação do hipotálamo (a partir do uso de compostos de ômegas-3 e 9)
  4. Tratamentos estéticos (uso de mantas térmicas e aparelhos que emitem radiação infravermelha com o intuito desintoxicar e alcalinizar o sangue)
  5. Terapia motivacional em grupo (feita por meio de um aplicativo de celular)

A primeira consulta é feita por um profissional que passou pelo treinamento do método – que pode ser nutricionista, médico, fisioterapeuta ou mesmo esteticista. Com base na bioimpedância e em exames laboratoriais, é definida uma meta para a perda de peso de acordo com o IMC e o objetivo do paciente. A partir daí, ele tem acompanhamento diário via app e frequenta a clínica duas vezes por semana para fazer a parte estética, repetir a bioimpedância e fazer sessões de exercício aeróbico intenso, como os treinos HIIT. Pesar-se diariamente é outra orientação dos especialistas do programa.

 

O público-alvo são pessoas obesas e com sobrepeso a partir de 14 anos de idade, mães em pós-parto imediato e mulheres que precisam perder peso para engravidar. Gestantes, indivíduos com insuficiência renal, distúrbios degenerativos e anemias não podem aderir.

Desinflamar o hipotálamo seria a cura da obesidade?
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O grande diferencial do método 5S é a chamada “reprogramação” do hipotálamo por meio da desinflamação dessa região. Os criadores do programa de emagrecimento afirmam que há respaldo científico comprovando a estratégia, mas não é bem assim.

“As evidências que existem são de estudos feitos em animais, especialmente camundongos e ratos. Em humanos, os indícios são apenas indiretos”, aponta a médica Simone van de Sande Lee, professora de endocrinologia e metabologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autora de um dos trabalhos que inspirou o 5S.

Nos bichinhos, já se mostrou que uma dieta cheia de gordura saturada pode disparar uma reação inflamatória no hipotálamo, de modo que ele se torna insensível à leptina, o hormônio da saciedade. “Com isso, o animal sente fome mesmo sem precisar”, pontua Simone.

 

Só que, em pessoas, a história é outra. Em seu estudo – feito pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo –, a endocrinologista identificou que a atividade dos neurônios dos obesos é diferente quando comparada a de indivíduos dentro de um peso considerado saudável. Acompanhando os participantes, que passaram pela cirurgia bariátrica, ela também notou que, oito meses após o procedimento, eles apresentavam uma melhora no padrão inflamatório. “Mas isso não é evidência direta de inflamação no hipotálamo. Para isso, teríamos que fazer uma biópsia do cérebro, o que não é possível”, pondera Simone van de Sande Lee.

Outro conceito do 5S desbancado pelos especialistas é a possibilidade de “reprogramar” o hipotálamo. “Não existe nenhum método comprovado que tenha capacidade de fazer isso em humanos”, afirma o endocrinologista Bruno Halpern, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e vice-presidente da Federação Latino-americana de Obesidade. Segundo ele, o único procedimento que talvez possa alterar o funcionamento hipotalâmico é a cirurgia bariátrica, indicada para casos específicos. “Mesmo assim, ninguém sabe se o hipotálamo muda, de fato, ou se os mecanismos da cirurgia o impedem de atuar como deveria. É uma discussão”, diz Halpern.

Ômegas 3 e 9

A ação dos ômegas 3 e 9 para acabar com o processo inflamatório do hipotálamo – como propõe o método 5S – ainda é mistério para a ciência. Segundo Simone van de Sande Lee, um outro estudo da Unicamp mostrou que a injeção direta desses ácidos graxos no cérebro de animais melhora a inflamação e a perda de peso. Em pessoas, porém, a coisa funciona de outro jeito, já que não é possível fazer injeções diretamente na massa cinzenta. “Além disso, os resultados de pesquisas com suplementação de ômegas 3 e 9 não se mostraram tão significativos” observa a docente.

Para Bruno Halpern, muitas perguntas ainda precisam ser respondidas. “Não temos a mínima ideia se essa suplementação deveria ter sido feita antes de a pessoa engordar. Será que quando ela está obesa não é tarde demais? De quanto tempo deve ser esse uso?”, questiona o médico. Ele afirma que, em relação à obesidade, o uso dessas gorduras é experimental e sem comprovação científica.

Receita de sucesso

A obesidade é um dos principais problemas de saúde pública atualmente no Brasil e no mundo. Por aqui, ela atinge 18,9% dos homens e mulheres, segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada pelo Ministério da Saúde no dia 17 de abril de 2017. Globalmente, são mais de 600 milhões de obesos, de acordo com dados de 2014 da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além de causar encrencas como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares, o excesso de peso também traz problemas sociais e emocionais àqueles que sofrem com ele. E, ao contrário do que alguns pensam, não é algo fácil de ser resolvido. “Um estudo americano feito com pessoas que emagreceram muito mostra que, mesmo depois de seis anos, o organismo não se acostumou ao novo peso”, relata o diretor da Abeso.

 

Para manter o shape, não tem jeito: é preciso incluir a atividade física na rotina, algo que o método 5S não coloca como um de seus pilares. “Pesquisas mostram que pessoas que eliminaram grandes medidas costumam fazer mais de 200 minutos semanais de exercícios”, conta Bruno Halpern. A OMS recomenda no mínimo 150 minutos de atividade por semana para sair do sedentarismo.

Então, não se apegue a soluções mágicas. A obesidade, enquanto doença, precisa ser tratada de forma responsável. E, se o seu objetivo é perder apenas alguns quilinhos, procure um profissional de saúde e saiba que uma vida ativa e alimentação saudável e balanceada são as armas mais poderosas que você terá ao seu lado.

fonte: http://boaforma.abril.com.br/dieta/o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-metodo-5s-emagrecimento/

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